
O Tesouro da Pedra do Curuçá
O Tesouro da Pedra do Curuçá é o novo álbum do baterista e compositor Mario Gaiotto, nascido em Tietê (SP), e representa um mergulho na memória musical de sua cidade natal. Com lançamento previsto para o segundo semestre de 2026, o álbum traz oito faixas inéditas que estabelecem um diálogo contemporâneo com a obra de três compositores tieteenses — Marcello Tupynambá, Camargo Guarnieri e Itamar Assumpção.
Em Tupynambá, Gaiotto encontra a melodia brasileira em sua forma mais genuína, permeada por ritmos como o maxixe e o tango brasileiro; em Guarnieri, absorve o nacionalismo modernista e a sofisticação no tratamento camerístico de elementos como o ponteado de viola e a valsa brasileira; em Itamar, inspira-se no experimentalismo, na fusão de gêneros como pop, funk e reggae e em linhas de baixo com caminhos inusitados e pausas inesperadas.
As composições são interpretadas por um quinteto formado por Josué dos Santos (saxofone), Diego Garbin (trompete e flugelhorn), Léo Ferrarini (piano), Felipe Brisola (contrabaixo acústico) e o próprio Mario Gaiotto (bateria).
Do Terreiro ao Teatro ·
Uma das faixas do álbum é dedicada ao Batuque de Umbigada, ou Caiumba — tradição de matriz africana e uma das mais importantes expressões culturais de Tietê, onde a prática atravessou décadas de marginalização e resistiu ao apagamento, permanecendo viva como um dos mais significativos legados culturais da cidade. Sinhá Anicide na Beira do Mar presta homenagem à célebre cantora Anicide de Toledo e mergulha nos padrões rítmicos e na atmosfera do batuque, reinventando-os pela linguagem instrumental brasileira e pela harmonia modal do jazz — em um gesto que exalta ancestralidade, memória coletiva e resistência.
O Rio e a Pedra
O título do álbum evoca a lenda da Pedra do Curuçá — curuçá, "cruz" em tupi —, afloramento rochoso à beira do rio Tietê onde bandeirantes teriam enterrado um tesouro, sinalizando sua localização na pedra com uma cruz e a inscrição em latim Sic Transit Gloria Mundi: assim passa a glória do mundo. Em O Tesouro da Pedra do Curuçá, Gaiotto ressignifica essa história: a verdadeira riqueza escondida não é o ouro dos conquistadores, mas a Caiumba e as obras de Guarnieri, Tupynambá e Assumpção — um convite ao ouvinte para desvendar, numa pequena cidade do interior, o tesouro musical oculto sob essa pedra lendária.
A Experiência do Álbum
O Tesouro da Pedra do Curuçá chega ao público em um formato que rompe com as convenções do lançamento musical contemporâneo — uma experiência que habita ao mesmo tempo o mundo físico e o digital, o artesanal e o tecnológico. A capa do álbum é uma xilogravura original criada pela artista Paula Iwata, especialmente concebida para o projeto: uma anhuma azul — ave símbolo da cidade de Tietê, na cor de sua bandeira — cuja cauda se funde às águas do rio Tietê que margeiam a pedra lendária. A ave carrega em seu bico uma folha dourada: o tesouro. Cada impressão é uma obra de arte única, pronta para emoldurar, produzida artesanalmente e assinada à mão pela própria artista.
Simultaneamente, o álbum ganha vida em um aplicativo digital homônimo, que amplia a experiência da escuta com conteúdos exclusivos. E é nesse ponto que o físico e o virtual se encontram: ao apontar o celular para a xilogravura, o aplicativo a reconhece por meio de realidade aumentada e abre o universo do álbum diretamente da obra de arte. Arte e tecnologia que se tocam no mesmo ponto: a xilogravura na parede que vira porta de entrada para o álbum.
O Tesouro da Pedra do Curuçá - Faixa a Faixa - Do Terreiro ao Teatro
Lado A — Terreiro
1. Só na Próxima Encarnação, Meus Prezadíssimos Ouvintes
Homenagem direta a Itamar Assumpção, a faixa nasce do encontro entre duas de suas composições — Próxima Encarnação e Prezadíssimos Ouvintes —, cujas linhas de baixo servem de matéria-prima para uma construção nova, que preserva o espírito inquieto e inclassificável do artista tieteense.
2. Tietê Abaixo, de Bote
Uma composição que convida o ouvinte a embarcar num cortejo fluvial pelo rio Tietê. A música nasce de uma célula rítmica quaternária de maracatu transposta para uma divisão em sete, onde o pulso perde o chão firme e começa a flutuar — o maracatu que desce a correnteza de bote.
3. Nego Dito Blues
Inspirada no arranjo de Itamar Assumpção para Negra Melodia, de Jards Macalé, a faixa absorve sua estética singular — o blues que não é bem blues, o reggae que não é bem reggae, o jazz que não é bem jazz — e a recria pelo olhar de Gaiotto.
4. Sinhá Anicide na Beira do Mar
Mergulhada nos padrões rítmicos do Batuque de Umbigada, a faixa presta homenagem à cantora Anicide de Toledo, figura central da Caiumba. A linguagem instrumental brasileira e a harmonia modal do jazz se entrelaçam num gesto de exaltação à ancestralidade e à resistência cultural.
Lado B — Teatro
1. O Jardim das Valsas
Inspirada na vasta coleção de valsas de Camargo Guarnieri — tão numerosas que formam, por si só, um jardim inteiro —, a faixa evoca também a praça central de Tietê, carinhosamente chamada de "jardim" pelos moradores da cidade.
2. Sic Transit Gloria Mundi
Inspirada no Choro para Piano e Orquestra (Cômodo) de Camargo Guarnieri, a faixa transpõe técnicas da composição erudita para o universo popular instrumental — num diálogo que ecoa a inscrição gravada na Pedra do Curuçá: assim passa a glória do mundo.
3. Saudades dos Tempos da Vitrola
Homenagem a Marcello Tupynambá, a faixa reimagina a atmosfera dos salões das décadas de 1920 e 1930. Uma viagem no tempo que traz ao presente o charme, a elegância e a melodia genuinamente brasileira de um compositor que o país ainda redescobre.
4. Ponteio Queima-Campo
Mais uma incursão na obra de Camargo Guarnieri, desta vez pela coleção de seus célebres ponteios. A composição incorpora também os trejeitos da viola caipira, criando um encontro entre o refinamento camerístico e os dedos calejados do violeiro da roça — entre o concerto e o ponteado do interior. O título evoca As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho (O Queima-Campo), de Cornélio Pires, mais um célebre tieteense — porque este ponteio é, ele mesmo, uma aventura estrambótica: a de um compositor que transita entre o erudito e o caipira sem pedir licença, e que encontra na aparente contradição entre os dois mundos o seu território mais fértil.
Sobre Mario Gaiotto
Trabalhou com renomados músicos brasileiros, dentre eles Antônio Nóbrega, Benjamim Taubkin, Proveta, Teco Cardoso, Spok e Toninho Ferragutti, além de músicos de outras nacionalidades como o belga Henri Greindl, o israelense Itamar Doari, o austríaco Michael Ruzitschka e os franceses Jacques Figueras e Nicola Són.
Foi um dos fundadores do quinteto de música instrumental brasileira Mandu Sarará, com o qual gravou discos com participações especiais de Hermeto Pascoal e Danilo Caymmi.
